Clara Ribeiro: “A verdade que eu coloco na minha música é a minha verdade”
Em entrevista à R&B Brazil, a cantora da Zona Norte e da Baixada Fluminense fala sobre território, a mixtape “Outras Ondas, Mesmas Cores”, mulheres na música eletrônica e sua relação com o R&B.

Cantora, compositora e produtora de audiovisual, Clara Ribeiro é uma das vozes mais singulares da cena underground carioca. Nascida na Zona Norte e criada na Baixada Fluminense, ela cruza samba, MPB, R&B, neo soul e reggae com a música eletrônica. Em “Outras Ondas, Mesmas Cores”, sua mixtape mais recente, Clara mergulha no house, no city pop, no UK garage e no grime, em um trabalho construído em coletivo. Conversamos com ela sobre esse momento.
Sua música carrega uma marca muito forte da Zona Norte e da Baixada Fluminense. Como você percebe isso, do início até hoje?
É uma coisa que está em mim naturalmente. Eu nasci no Rio Comprido, morei a vida inteira em Vista Alegre, mas fui criada na Baixada Fluminense, em Duque de Caxias. Então tenho esses dois territórios muito presentes dentro de mim. Não tem como fazer arte ou fazer música sem transmitir de onde a gente veio, na melodia, na escrita, na presença.
E isso foi acontecendo naturalmente. As pessoas foram falando disso comigo e eu fui me conhecendo também pelo olhar dos outros, entendendo para onde o meu trabalho estava indo e como as pessoas me enxergam. Apesar de já estar dentro de mim, eu percebi isso muito pelo olhar do outro.
E o que você absorveu de outros lugares que também faz parte do que você leva?
Eu fui a Itaipuaçu ontem, inclusive. Itaipuaçu, em Maricá, fez parte da minha infância. Era o meu lugar de paz, de descanso, onde eu ia com meus pais e padrinhos. Tenho até uma música escrita para lá que ainda não foi lançada. Acho que esse lugar me trouxe uma sensibilidade muito genuína de enxergar o mundo. Quando eu falo muito de mar e de infância nas minhas escritas, é esse território da Região dos Lagos que está vivo em mim.
Falando em mar: o que são as “outras ondas” e as “mesmas cores” do título?
Outras ondas porque eu me permiti navegar por águas de outros gêneros dentro da música eletrônica. Me permiti conhecer e estudar outras vertentes, como o city pop e o grime, que eu tinha vontade de escrever e fazer. E mesmas cores porque sou eu mesma. É a minha voz, o meu jeito MPB, popular, de cantar.
Não foi proposital, tipo “outras ondas porque é mar”. Como eu falei, é uma coisa que já está em mim. As coisas só vêm naturalmente.
Uma coisa que chama atenção nas suas músicas é a nitidez da sua voz. Tudo o que você canta fica muito claro. Isso é intencional?
É muito legal você falar isso, porque quando eu comecei a cantar, na minha primeira música, “Intensidade”, algumas pessoas vieram me dizer: “acho que você precisa estudar mais, porque eu não consigo entender nada do que você canta”. Algumas críticas mesmo. E eu ficava pensando: será que é isso mesmo?
Então ouvir isso agora é quase uma resposta para todos os meus questionamentos. Nunca foi intencional. É o meu jeitinho de cantar, que eu ainda estou entendendo e aprofundando. Que bom que isso chegou e tocou você dessa forma.
Como nasceu a mixtape? Havia uma intenção definida desde o início?
Eu já tinha algumas músicas escritas. “Ligação”, por exemplo, estava guardada havia dois anos e foi se reformulando com o tempo. Depois de “Desabafos”, eu já queria entrar nesse nicho da música eletrônica. Fui fazendo, fui gostando do que eu estava ouvindo, e acho que isso é o mais importante.
O Diogo, meu produtor e meu companheiro, teve a ideia: “vamos fazer uma mixtape, uma coisa despretensiosa, sem precisar ter tudo amarradinho”. A gente não tinha muito tempo para fazer visual, porque estava trabalhando em outras coisas também. Aí eu fui juntando as músicas e pensei: preciso aproveitar essa ideia para trazer uma galera com quem eu quero fazer música e aprender.
Foi assim que vieram as participações de Ciana, Lettié, Maui, MASKOTTE e JOCA. Foi um trabalho feito em comunidade mesmo. A gente ia para o estúdio, ouvia o beat repetidamente e ia entendendo o que aquele beat queria dizer. Eu fui mostrando o que já tinha. Não se faz arte sozinho, e esse foi o trabalho mais divertido que eu já fiz.
Críticos enxergam um movimento acontecendo no Rio, com artistas da Baixada que dialogam com o grime e a música eletrônica. Você se vê dentro dele?
Sim, acho que sim. Conheço e admiro o trabalho de muita gente, mas quando olho para o meu, vejo uma coisa que não tem muito por aqui, principalmente mulheres no grime. Temos muitos MCs que rimam em cima de beats de grime, temos DJs como o Antconstantino, que chama outras pessoas para cantar. Mas mulheres cantando melodicamente em cima desse tipo de música eletrônica, eu não conheço muitas. Se vocês conhecerem, me falem, porque eu quero conhecer e fazer música junto. E tem a Jorja Smith, que é uma das minhas maiores referências.
Eu não me via dessa forma, porque às vezes a gente se enxerga mais pelo olhar do outro. Mas conversando com outras pessoas, fui entendendo que a gente também precisa valorizar o que faz. Então sim, eu me enxergo nesse movimento.

Você acha que ainda existe uma barreira do público com o grime e o UK garage?
Principalmente quando tem uma voz feminina junto. Eu sinto uma resistência. Quem já consome música eletrônica adora, mas o público de fora resiste quando não é um cara cantando e rimando em cima do beat. Quando é algo mais melódico, mais feminino, eu sinto essa resistência, sim.
Mas acho que a gente está conseguindo quebrar. Temos a Amanda Sarmento, uma artista maravilhosa com um projeto incrível que está quebrando essa barreira. A Ciana também está vindo com um projeto mais eletrônico. Estamos dando passinhos legais.
Sem filtro: como você enxerga o R&B no Brasil hoje?
Temos pessoas muito fiéis ao gênero. A Meraki Nina, o Ryan Fidelis e o Maui, que hoje são a trindade do R&B, para mim. E muitas outras artistas.
Falando por mim, eu nunca me vi dentro desse nicho. Mas o R&B não é uma coisa só, ele é muito amplo. O meu jeito de cantar pode ser um pouco R&B, um pouco MPB, popular, com um pouco de samba. Tem algo do R&B, uma coisa meio sensual e, ao mesmo tempo, firme, presente. No início eu me via fazendo R&B. Hoje não sei se me vejo dentro dessa cena, mas entendo quem me coloca nesse lugar e acho maravilhoso, porque consumo R&B a minha vida inteira. A cena está crescendo muito. Na verdade, já está muito grande.
Para onde você quer que esse trabalho chegue?
Tenho muita vontade de fazer show em Londres, que é o berço do UK garage. Quero alcançar as pessoas de lá, conhecer artistas, principalmente do underground. Mas quero muito chegar à parte de cima do nosso país. No Spotify for Artists eu vejo uma galera de Salvador, de Natal e de Recife me escutando. Só fiz shows no Rio, em São Paulo e em Minas, no Sudeste. Quero conhecer meu público de outros lugares e me conectar com essas pessoas. É uma vontade que ferve dentro de mim.
Não quer dizer que meu próximo projeto vai ser totalmente eletrônico, mas é uma coisa que eu nunca vou deixar de fazer.
O que você escuta que não aparece tanto no que você apresenta?
Escuto muito rock alternativo, indie pop e indie rock, e isso me ajuda muito nas composições. Bandas brasileiras me inspiraram muito no meu último trabalho e neste também. O Menores Atos, por exemplo, é uma banda que eu escuto e que talvez a galera nem imagine. Samba, reggae e R&B todo mundo já sabe que eu escuto. Esse outro lado também está dentro de mim.
Como você enxerga o desafio de fazer um trabalho original, sem ceder às demandas do mercado?
Isso nunca foi uma questão para mim. Mas no início, quando comecei, achava que ia estourar de cara e ganhar dinheiro suficiente para me manter com a música. Fui entendendo como funciona o processo e quis desistir várias vezes. Fui trabalhar com audiovisual, que também amo, e continuei fazendo música só por fazer. O Diogo me disse: “faz música porque você gosta, e o que vier vai ser consequência”.
Hoje eu enxergo o crescimento dentro da indústria como uma consequência do que eu faço. A verdade que eu coloco na minha música é a minha verdade. Quem consumir isso vai estar consumindo o que eu vivo todos os dias. É óbvio que a gente quer que o trabalho chegue longe, mas não faço música para agradar o comercial. Faço a música que eu gosto, do jeito que eu gosto. Se eu pudesse parar tudo e fazer indie rock, eu faria e ficaria tocando com a minha bandinha onde estivesse. A música me alimenta de uma forma emocional. Se o resto vier, vai ser lindo, porque é consequência do que eu faço com todo o meu coração.
Alguma música te inspira a manter essa mentalidade?
“De Canção em Canção”, do Menores Atos, é uma música que eu escuto muito e que me dá vontade de chorar. Tem uma do Gilberto Gil também. E “Cravo e Canela”, do Clube da Esquina. Na verdade, o álbum inteiro me traz essa sensação.
Qual música da mixtape mais te surpreendeu e qual foi a mais desafiadora?
A que mais me surpreendeu foi uma que eu cantei num show na Baixada Fluminense, na sexta, e a galera cantou junto, fazendo dobra para mim. Meu sonho era fazer um show em que o público fizesse dobra para mim. Fiquei chocada.
A mais desafiadora foi “Ligação”. É uma música muito difícil, que foi se reestruturando ao longo de dois anos. Quando nasceu, não era nada do que é hoje. Eu já quis não lançar, e o Lucas falou: “você tem que lançar, ela tem que ser a number one”. Foi um processo de muito amor. Gosto muito dela.
Entrevista: R&B Brazil. Fotos: @wanscheeffer. Pesquisa: @naocahh.





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