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Do pagodão ao rap: cinco artistas que estão dando sotaque brasileiro ao afrobeats

há 22 minutos
5 min de leitura

BIAB, Yan Cloud, Afrolai, Prince Belofá e Rincon Sapiência mostram como o som que nasceu na Nigéria e em Gana ganha novas leituras no Brasil, em diálogo com o R&B, o funk, o samba, o pagodão baiano e o rap



Se há poucos anos o afrobeats era um som que chegava ao Brasil pelas playlists internacionais, puxado por nomes como Burna Boy, Wizkid, Tems e Rema, hoje ele também é feito aqui, e com sotaque próprio. Associado sobretudo às cenas da Nigéria e de Gana, o gênero vem sendo reinterpretado por uma geração de artistas brasileiros que o colocam em diálogo com o R&B, o funk, o samba, o pagodão baiano, o rap e a música eletrônica, criando produções que aproximam territórios e experiências da diáspora africana.

Mais do que reproduzir uma tendência internacional, esses músicos buscam as conexões entre a música africana contemporânea e as matrizes negras brasileiras. Do Rio de Janeiro a Salvador, de Sobradinho (DF) a São Paulo, a cena reúne de um veterano que ajudou a abrir esse caminho no rap nacional a estreantes que já chegam com disco lançado, artistas que colaboram entre si, dividem palcos com nomes africanos e ampliam as possibilidades da música negra feita no país. Reunimos cinco nomes para ficar de olho. Vem conferir:




Cria da Zona Norte do Rio de Janeiro, BIAB  (nome artístico de Bia Bezerra) ganhou projeção internacional em 2022, quando apresentou "Pedra do Sal" no COLORSxSTUDIOS, tornando-se uma das poucas brasileiras selecionadas pela curadoria da plataforma. Depois do álbum LadoB (2021) e do EP LAPA (2022), gravou "Nuvem" com o produtor português Branko e o ganês Gafacci, subiu ao palco do NOS Alive, em Lisboa, e viu "Água na Boca" viralizar no TikTok, onde a faixa embalou mais de 40 mil vídeos. Soma mais de 14 milhões de streams no Spotify e já dividiu cena com BaianaSystem, Xamã, Teto e Vanessa da Mata.Nas letras, canta a paixão, o desejo e o amor entre mulheres a partir das vivências da cidade. "Muitas vezes as pessoas me perguntam se eu não penso em fazer algo mais político, mas sinto que falar de amor já é tão político", afirma

Em agosto de 2026, lançou BIA1B99, seu primeiro álbum de estúdio. O título faz referência às placas de carro do padrão Mercosul e une o nome artístico ao ano de nascimento da cantora (BIAB + 1999). Com onze faixas e direção musical de Pedro Amparo e da própria artista, o disco foi pensado como trilha sonora para quem vive a cidade em movimento e mistura afrobeats, R&B, pop, MPB e rap. O projeto tem produções de Carlos do Complexo, como "PRÊMIO", que cruza afrobeats, amapiano e gqom, participações da britânica Carla Prata, de Tshawtty e Duda Raupp, o violino de Juliette Jones, que já tocou com Beyoncé e Rihanna, e a parceria com o baiano Yan Cloud em "COLARINHO".





Com mais de dez anos de trajetória na música soteropolitana, Yan Cloud desenvolve uma sonoridade marcada pelo encontro do afrobeats com o pagodão baiano, o rap, o R&B e o amapiano, mistura que leva aos palcos como pagotrap. Em AFROSSA, segundo álbum de estúdio, lançado no fim de 2024, o artista aproxima essas referências das matrizes musicais da Bahia, do samba-reggae ao pagodão. "Queríamos mostrar como seria um afrobeats se ele nascesse em Salvador, conectando a ancestralidade do samba-reggae e o legado de artistas como Neguinho do Samba com o frescor do afrobeats moderno", resume.

O título, criado por Yan e pelo produtor Zamba, batiza as dez faixas inéditas do disco, que reúne participações de Rachel Reis, Larissa Luz, Rincon Sapiência, Lazzo Matumbi e Melly. Em 2025, Yan dividiu a programação do Trace Fest Salvador com Seun Kuti & Egypt 80, filho de Fela Kuti, criador do afrobeat, e viu o single "Brinde" entrar em playlists editoriais de afrobeats do Spotify. Também é o idealizador do Baile Afropink, festa gratuita no Pelourinho dedicada à celebração da cultura negra, e participa de "COLARINHO", faixa do álbum de estreia de BIAB.

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Nascida Laís da Silva Carvalho e criada em Campos dos Goytacazes, no interior fluminense, Afrolai estreou nos palcos como DJ em 2015 e se mudou para a capital três anos depois, em busca de uma virada na carreira. "Minha identidade sonora vem da vivência nas ruas", define a artista, que se formou na cena carioca de DJs e já estrelou campanha da Puma em São Paulo.

Hoje, Afrolai leva aos palcos uma performance que mistura afrobeats, amapiano, R&B e música brasileira, marcada pela troca com o público e pela força rítmica das composições. Em 2026, integrou o line-up do AFROPUNK Experience Rio de Janeiro, no Terreirão do Samba, ao lado de Rachel Reis, Psirico, Slipmami e Carlos do Complexo, produtor que também assina faixas do disco de BIAB. "Quero marcar meu nome na música preta", afirma.

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Nascido em Sobradinho, no Distrito Federal, Prince Belofá (João Victor Torres dos Santos) cresceu entre a poesia, o samba em casa, as religiões de matriz africana e as batalhas de rima do Centro-Oeste. Campeão do Slam DFão, o rapper de 21 anos estreou em disco com NEGUINHO, lançado no Dia da Consciência Negra de 2025.

São 12 faixas que atravessam rap, trap, afrobeats, neo-samba, pontos de macumba e percussão ancestral, num trabalho que discute identidade, espiritualidade e racismo a partir das camadas da palavra que dá nome ao disco: o "neguinho" dito com afeto, o marcado pelo racismo e o que reafirma identidade. Produzido por Rubão, o álbum reúne Marcelo Café, Nayê, Aggin, Isa Marques, Aqualtune e Layó. Desde o lançamento, Belofá circula pela cena independente de Brasília, com show no Favela Talks, e já prepara novas músicas que aprofundam a pesquisa sonora do disco. Faixas para começar: "Neguinho.", "Baile.", "Retinto." e "Boiadeiro.".

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Rapper, produtor e pesquisador musical paulistano, Rincon Sapiência é uma das referências na aproximação entre o rap brasileiro e a música africana contemporânea. O caminho já estava em Galanga Livre (2017), álbum de "Ponta de Lança", e ganhou fôlego em Mundo Manicongo: Dramas, Danças e Afroreps (2019). Nos anos seguintes, estreitou laços com nomes de diferentes cenas, de Anitta, com quem gravou "Nanã", a Rachel Reis, além de participar de AFROSSA, de Yan Cloud.

Em junho de 2026, voltou aos lançamentos com Um Corpo Preto, terceiro álbum de estúdio, lançado de forma independente pelo seu selo, MGoma. São 17 faixas que costuram rap, afrobeats, dancehall, reggae, samba, funk e música eletrônica em torno da vivência do corpo preto, com participações de Dino d'Santiago (na faixa de abertura, "Diáspora"), Péricles e Marissol Mwaba (em "Homem Gol"), Lino Krizz, Mylena Drague e Funk Buia.

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