R&B Playlist:Izy Castelano
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Há um estigma de que lidar com artistas não é algo fácil e, de fato, não é. Artistas são seres complexos, às vezes introspectivos, às vezes expansivos. E, como alguém interessado, eu me atraio justamente por essa complexidade pelo singular, pelo inevitável.
Na conversa de hoje, encontro uma artista que carrega tudo isso: complexa, educada, inteligente, imersa em seus desejos e ardente nas palavras. Nosso papo é com a querida Izy Castelano.
O ponto de partida é uma seleção de dez faixas escolhidas pela própria artista, reunidas em uma playlist já disponível no perfil da Rnb Br, um recorte que ajuda a traduzir não só suas referências, mas também escolhas da artista. .
Para entrar no ritmo dela, é preciso atenção — porque o trem não vai parar.
Pulamos em 3, 2, 1... agora.
Construção artística e visão de carreira
Alex Hoyte:
Você comentou que sua entrada na música não foi algo planejado, que aconteceu de forma mais natural. Ao mesmo tempo, hoje você demonstra uma consciência muito clara sobre o mercado, sobre contratos, monetização e estrutura de carreira.
Izy Castelano:
Eu tive a música presente na minha vida desde a infância, mas nunca vi como algo que eu ia fazer pra mim, sabe? Tipo, “ah, eu vou ser cantora”. Aconteceu meio acidentalmente.
E aí, com o tempo, eu passei por uma fase mais romantizada, que acho que todo mundo passa.
Aquela coisa de sentar e criar e achar tudo mágico. Mas a maturidade vai chegando e você entende que precisa levar isso como negócio também, não tem como ser só por amor.
Influências, natureza e identidade sonora
Alex Hoyte:
Quando eu analisei a sua playlist e também seus trabalhos, uma coisa que me chamou atenção foi essa presença muito forte de elementos naturais, espirituais e de autoconhecimento.
Não parece algo forçado ou estético apenas, mas sim algo que atravessa sua música de forma orgânica. Queria entender: esse contato com o natural e com esse universo mais místico influencia diretamente sua musicalidade?
Izy Castelano:
Eu acho que é natural mesmo! Eu sempre acabo indo para esse lado.
Isso tem muito a ver com a minha vida. Eu sou carioca, nasci em Magé, passei uma parte da infância no Complexo do Alemão e depois fui viver no meio da natureza. Então isso me moldou muito.
Eu até tentei fugir disso, porque achava que ninguém ia se interessar. Eu me via como “a doidinha do centro”. Mas depois percebi que existe um público que se conecta com isso, e isso me deu mais confiança.
Persona artística e autenticidade
Alex Hoyte:
Existe uma discussão muito forte na música sobre a construção de persona , artistas que separam completamente a vida pessoal da artística.
No seu caso, você já tentou fazer essa separação. Como você enxerga hoje essa relação entre a Izy artista e a Izy pessoa?
Izy Castelano:
Eu já tentei separar, mas não dá totalmente.
A artista se alimenta da pessoa. Teve um momento que eu tentei fazer essa separação por estratégia, mas não funcionou. Eu perdi inspiração, fiquei sem saber me comunicar.
Eu fiquei um tempo até meio travada, porque tudo que eu gosto de fazer alimenta a artista. Hoje eu entendo que quanto mais de mim tem na artista, mais interessante ela fica. Eu não quero parecer inalcançável, eu gosto de mostrar vulnerabilidade.
Liberdade criativa e relação com o público
Alex Hoyte:
Muitos artistas acabam moldando o próprio trabalho com base na expectativa do público ou nas demandas do mercado. No seu caso, parece existir uma escolha consciente de não seguir ocaminho óbvio. Como você enxerga sua liberdade criativa hoje?
Izy Castelano:
Hoje eu me vejo mais livre, mas isso veio com o tempo. Antes eu só fazia, sem pensar muito.
Depois do álbum (Ardente), eu comecei a refletir mais, a escrever, a tentar me entender melhor.
E percebi que eu sei onde eu quero estar, mas não quero estar onde todo mundo está.
Eu prefiro ter um público menor, mas que realmente se conecte comigo. Prefiro fazer vários shows pequenos do que grandes festivais, por exemplo.
Pra mim, essa conexão é mais importante do que número!
Medo e início da carreira
Alex Hoyte:
O começo de uma trajetória artística costuma vir acompanhado de inseguranças, principalmente quando existe uma transição de hobby para profissão. Você lembra de algum momento em que o medo apareceu de forma mais forte dentro da sua carreira?
Izy Castelano:
Sim, no começo, quando eu fui pro estúdio pela primeira vez. Eu achava que não sabia compor.Mas um amigo me chamou pra tentar, e eu fui. E saiu a primeira música. Depois disso, eu percebi que sabia fazer, e nunca mais parei.
Sobre o mercado, eu nunca esperei muita coisa, então eu não tenho muito medo nesse sentido.
Meu maior medo foi esse primeiro momento.
Caminho artístico, processo criativo e próximos movimentos
Alex Hoyte:
Ao longo da nossa conversa, uma coisa que me chamou atenção foi a forma como você constrói sua música partindo da sensação, quase como um movimento de trás pra frente.
Isso me lembrou uma entrevista do Chico Buarque, em que ele comenta sobre começar pela construção musical , melodia, estrutura , e depois desenvolver a letra. No seu caso, parece existir um passo além: você parte do sentimento final que quer provocar, depois constrói melodia e, por último, chega na letra.
Você enxerga esse seu processo dessa forma? E como isso se conecta com o momento atual da sua carreira e com o que você busca daqui pra frente?
Izy Castelano:
Nunca tinha pensado nisso dessa forma, mas faz muito sentido. Eu realmente começo do final.
Eu penso no que eu quero que as pessoas sintam, na sensação, e aí vou construindo o resto.
Depois eu vou para sonoridade, melodia, e a letra vem por último. Muitas vezes eu já tenho algumas palavras-chave, mas a construção mesmo vem depois.
E acho que isso tem muito a ver com o momento que eu estou vivendo. Hoje eu entendo melhor o que é construir um projeto, não só uma música. Eu estou começando a pensar mais no todo, na experiência, no que eu quero provocar.





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