RNB Playlist by Nina
- Nassor Oliveira Ramos

- 19 de jan.
- 5 min de leitura

Existem artistas que escutamos uma vez ou outra e que, naturalmente,
acabam se perdendo no meio das playlists ou dos milhares de lançamentos
que surgem todos os dias. Com essa artista, porém, foi diferente. Desde a
primeira escuta, ela se fez presente e passou a marcar muitos momentos
especiais da minha vida.
E, por incrível que pareça, não foi pela música que eu a conheci
inicialmente. Antes mesmo de me tornar um ouvinte atento, me tornei
admirador do seu trabalho e, com o tempo, nos tornamos amigos.

Dando início ao nosso mais novo quadro de entrevistas, hoje conversamos
com Nina, cantora de R&B carioca que vem se destacando no cenário
musical. O centro do nosso papo é uma seleção de dez faixas escolhidas
pela própria artista, reunidas em uma playlist especial no Spotify.
Vamos ao papo!
Sobre referências musicais e influência da voz
Alex Hoyte:
Quando eu analisei a playlist que você selecionou, uma coisa me chamou
muito a atenção. Em praticamente todas as faixas, a voz ocupa um lugar
central, seja pelo timbre, pela técnica ou pela forma como ela conduz a
música. Dá a sensação de que a voz não é só um elemento, mas quase um
guia da experiência sonora.
Partindo disso, como você enxerga a influência da voz dentro da sua
própria música?
Nina:
Essas músicas da playlist são as que eu estou mais viciada no momento.
Algumas são mais antigas, mas sempre acabam voltando para o meu radar.
E geralmente são melodias vocais que me pegam muito, melodias peculiares, cantores que eu acompanho há bastante tempo e com quem me
identifico artisticamente.
Um exemplo é a Kelly Price. Eu coloquei uma música para representar o
álbum inteiro, porque é meu álbum favorito da vida. As técnicas vocais
dela, mas principalmente a construção melódica, me encantam muito. Eu
amo a forma como ela compõe, não só a letra, mas a melodia.
Muita gente fala que gosta muito das minhas melodias, e isso vem do fato
de eu pensar nelas antes mesmo das letras. Porque, para além da história, é
a melodia que fica na cabeça das pessoas e desperta sentimentos que a
gente nem sempre sabe explicar. Eu trago essas referências para o meu
repertório, para o meu imaginário criativo.
Processo criativo e escuta musical
Alex Hoyte:
Pensando agora no seu processo de escuta, não só como artista, mas
também como ouvinte, fico curioso sobre o que te chama primeiro quando
você dá play em uma música.
Quando você está ouvindo música, seja para estudo ou lazer, o que vem
antes para você, a voz ou outros elementos?
Nina:
Não necessariamente a voz. O que mais me pega é a construção melódica.
É algo muito específico, dá para perceber quando o artista teve cuidado ou
quando isso é algo natural no processo de composição.
Eu presto muita atenção nisso. Claro que também observo o instrumental e
a produção, mas sei que muitas vezes o cantor ou intérprete tem um dedo
importante ali. No fim, a criação melódica é o que mais me interessa e o
que mais influencia a minha própria composição mas sei que muitas vezes
o cantor ou intérprete tem um dedo importante ali, é isso o que me
interessa, já que ainda não produzo música.
Mas eu escuto de tudo. Estou sempre buscando novos artistas e projetos
para expandir minhas referências. Presto atenção no processo criativo dos
outros, em como constroem a música como um todo. Isso acaba ficando na
minha cabeça e influencia naturalmente as próximas músicas que eu faço.
Exploração artística e não repetição
Alex Hoyte:
Algo que aparece muito quando a gente acompanha a sua discografia é a
presença do ritmo, de camadas rítmicas que mudam bastante de uma
música para outra. Dá para perceber um cuidado em não se acomodar em
uma fórmula.
Você se enxerga como uma artista aberta a explorar cada vez mais
camadas da sua musicalidade?
Nina:
Com certeza. Eu tenho uma coisa muito forte comigo, eu não quero
repetir o que já fiz. Hoje estou compondo com mais frequência, mais
constância, e isso faz com que a gente possa cair em vícios, de palavras, de
melodias, de estruturas.
Eu presto muita atenção nisso. Não gosto de repetir fórmulas, mesmo
aquelas que deram certo. Sei que algumas músicas minhas tiveram um
retorno muito positivo, mas não penso em refazer aquilo. Acredito que
sempre posso explorar mais a minha criatividade e o meu lado artístico.
Eu sei que tem muito mais para sair de mim. Não quero olhar para a minha
discografia no futuro e perceber que repeti demais as mesmas ideias. Isso
me incomoda como artista.
R&B brasileiro e identidade cultural
Alex Hoyte:
Quando a gente fala de R&B no Brasil, existe sempre uma tentativa de
encaixar o gênero em definições muito rígidas, quase como se ele
precisasse seguir um manual. No seu trabalho, isso parece acontecer de
forma muito mais orgânica.
Como você enxerga essa discussão sobre o que é ou não é R&B,
especialmente dentro do contexto brasileiro?
Nina:
O R&B está em constante transformação. Ele é um gênero originalmente
norte-americano, mas quando a gente traz isso para o Brasil,
inevitavelmente insere a nossa cultura. Eu sou brasileira, então faço R&B
brasileiro.
Isso não significa que ele precise ser igual ao R&B dos Estados Unidos,
dos anos 90 ou 2000. Eu amo R&B dos anos 2000, escuto muito, mas não
faz sentido ficar preso a uma fórmula. O R&B contemporâneo é diferente,
ele mudou.
A gente sempre fez R&B no Brasil, só que muitas vezes isso vinha
rotulado como soul music. Tim Maia, Sandra de Sá, Fat Family, tudo isso
já era R&B, mesmo que não fosse chamado assim. Hoje, artistas como
Ludmilla, IZA e Gloria Groove também fazem R&B, mas muitas pessoas
não reconhecem porque existem outros elementos misturados.
Não faz sentido tentar definir rigidamente o gênero. O R&B brasileiro não
é melhor nem pior, é diferente. Ele carrega a nossa identidade, a nossa
forma de cantar, de falar, de produzir.
Consumo de música e escuta ativa
Alex Hoyte:
Hoje a música está muito presente no cotidiano, mas muitas vezes ela
acaba funcionando mais como plano de fundo do que como um objeto de
atenção real.
Como é a sua relação com a escuta musical nesse cenário?
Nina:
Apesar de fazer música, eu não escuto música todos os dias. Às vezes uso
como plano de fundo, mas quando estou estudando música de verdade, a
escuta precisa ser ativa. Eu presto atenção na melodia, na letra, na
produção, no instrumental.
Quando a música vira só trilha sonora, muita coisa passa batido. E é nesse
processo que a gente deixa de separar o que é interessante, bem
construído, do que é só barulho.
Mas também entendo que nem todo mundo tem essa relação com a
música. Para muita gente, ela é só um plano B, e tudo bem. A curadoria
mais profunda acaba ficando para quem vive disso, artistas, produtores,
imprensa, indústria.
Próximos passos e futuro da carreira
Alex:
Olhando para a sua trajetória recente, 2025 parece ter sido um ano de
virada e de consolidação artística. Ao mesmo tempo, dá a sensação de que
você ainda está no começo de muitas coisas.
Quais são os próximos passos da sua carreira a partir de agora?
Nina:
O meu EP conseguiu me posicionar no mercado, e ainda estamos
colhendo os frutos disso. Mas eu não quero parar. Já estou fazendo novas
músicas e estudando novos caminhos.
Estou preparando um projeto para o primeiro trimestre de 2026,
paralelamente, começando a desenvolver um álbum, ainda de forma inicial
e experimental. Quero continuar trazendo coisas novas para o público
enquanto puder.
Tenho muitos feats gravados que serão lançados, e pretendo permanecer
nessa era artística, mas sempre apresentando algo novo. A galera pode
esperar isso de mim, eu sempre vou tentar trazer algo diferente.

Alex Hoyte é formando em Publicidade Propaganda e observa o mercado da música como quem busca decifrar códigos culturais. Na intersecção entre cultura, estética e música, cria análises que traduzem o contemporâneo.




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